Todo fotógrafo tem curiosidade e gostaria de compreender mais sobre a história da fotografia. Mas são tantas datas, tantos eventos, descobertas e acontecimentos que é muito difícil construir um entendimento claro e cronológico sobre o desenrolar dos fatos. Como professor, eu vejo essa dificuldade em todos os semestres com as novas turmas de fotografia. Não falta esforço, mas de fato pouco fica registrado na cabeça após o período das provas. Uma das barreiras desse aprendizado é a forma como organizamos e ensinamos a história da fotografia. Nosso cérebro tem limites para armazenar a informação, então precisamos ajustar de forma coerente os fatos históricos para que fiquem dentro das possibilidades cognitivas dos estudantes.

A história da fotografia pode ser organizada em quatro grandes momentos, ou períodos como eu chamo. Esses períodos não foram divididos de forma aleatória, muito pelo contrário, é possível perceber que cada um deles se caracteriza por formar uma espécie de paradigma. Quero dizer que em cada período há uma constante em relação a diversos aspectos da fotografia, existe um padrão em relação ao tipo de câmera utilizado, aos usos sociais das imagens, as formas de comercialização, as formas de positivação, distribuição, enfim, os períodos podem ser reconhecidos por formarem uma espécie de “ecossistema fotográfico”.

O primeiro período começa antes da compreensão e do uso da química para a fixação de imagens. O dicionário etimológico nos indica que o termo fotografia significa “grafar (marcar, imprimir) a luz”, ou “com a luz”, ou ainda, “desenhar a luz”. Isso foi feito inicialmente pelos desenhistas e pintores quando usavam a câmara escura para produzir os esboços de seus trabalhos lá pelos séculos XIV ou XV. Alias, a principal característica de uma imagem fotográfica, o fato que a diferencia de outras imagens, é o achatamento da tridimensionalidade da visão humana dada pelos dois olhos, para uma bidimensionalidade produzida pela projeção da luz que atravessa uma lente. O termo ‘fotografia’ no entanto, só surge por volta de 1830 (no Brasil pela primeira vez com Hércules Florence), em função disso eu chamo esse período de Pré-fotografia, e o que caracteriza ele é o uso da câmara escura para produção de imagens. Então, as primeiras imagens fotográficas são as pinturas cuja perspectiva é produzida pela ancestral da câmera fotográfica. O princípio da câmara escura por sua vez, é discutido por Aristóteles 300a.c., no entanto para nossa classificação, vamos indicar o período aproximado em que a câmara escura começou a ser usada como recurso técnico para o desenho, que seria por volta de 1500.

O segundo momento da fotografia, surge com a utilização de processos QUÍMICOS para fixar a imagem projetada pela lente. Agora não são mais as mãos do artista que grafam a cena projetada pela luz, mas uma certa mistura de produtos químicos que reagem à radiação luminosa. Esse período começa com a Heliografia de Niépce em 1826, e se estende até até virada do século. Nem sempre é possível falar em uma data específica para o início ou fim de cada um desses períodos, isso por que é necessário sempre um conjunto de fatores para a transformação do paradigma. Apesar da primeira fotografia feita com uma câmera ser a de Niépce, ela mais se parece com um borrão, por esse motivo que eu prefiro pensar como marco inicial do segundo paradigma fotográfico, o uso público do daguerreótipo a partir de 1840.

Então, o apagar das luzes do segundo período da fotografia, que alias eu chamo de Período da fotografia Química, começa em 1888 com a invenção do filme fotográfico. Nesse período (de 1840 até cerca de 1900) são praticados dezenas de processos de positivação de imagens. Processos como cianótipo, papel salgado, papel albuminado, marrom van dyke, kalitipia, platinotipia, bromoil, goma bicromatada, carbon print, e tantos outros, são de uma relativa dificuldade de execução (alguns mais, outros menos) e cobram um conhecimento profundo do fotógrafo sobre química. O mercado da fotografia se limita à prática do retrato. As câmeras são enormes, pois o negativo que produzem só pode ser transformado em positivo por contato, isso faz com que para ter uma fotografia final grande, seja necessário ter um negativo grande. Além disso, processos como o daguerreótipo e o colódio úmido precisam, obrigatoriamente, que o laboratório esteja junto ao fotógrafo, pois todo o processo deve ser executado do inicio ao fim. Não é possível com esses processos fotografar e revelar posteriormente. E o tempo de exposição é relativamente longo, o que torna a captura do movimento praticamente impossível, e confere às fotografias dessa época uma condição de formalidade, pela necessidade dos modelos se comportarem como estátuas por alguns segundos ou minutos.

O filme fotográfico de George Eastman, em 1888, inaugura uma nova era para a fotografia, absolutamente tudo muda no sistema fotográfico. O fotógrafo que antes deveria saber, obrigatoriamente, como preparar suas emulsões para fotografar, agora pode comprar um filme produzido pela industria. Em função disso, podemos chamar esse momento de Período da fotografia Analógica-Industrial. A câmera não precisa mais ser enorme, pois o negativo pode ser ampliado. Isso muda toda a condição de mobilidade. O conhecimento sobre luz e exposição, também pode ser ignorado, pois uma fotografia pode ser obtida apenas apontando a câmera e disparando, e com o desenvolvimento da eletrônica, diversos processos são gradativamente automatizados. Dessa facilidade toda, surge o gênero vernacular. O processo é tão simples que a Kodak lança uma câmera que basta engatilhar e disparar. Ao mesmo tempo também se desenvolvem os sistemas de impressão gráfica e com isso o mercado da fotografia se ampliar para a mídia impressa. A estética fotográfica também se altera radicalmente, os processos manuais e a busca pela subjetividade típica dos pictorialistas é rapidamente substituída pela fotografia direta. Se esse é um momento de explosão da prática fotográfica, toda aquela diversidade de processos do período da química é substituída por, praticamente, um único sistema: o negativo de acetato e ampliação em papel fotográfico. Ou seja, toda a artesania dos processos químicos é substituída pela produção em larga escala dos sistemas industriais, seja na fabricação de insumos e equipamentos, seja na distribuição das imagens em meios impressos de massa.

O quarto período da fotografia começa com o desenvolvimento das câmeras digitais, mas é um erro pensar que é isso que produz a verdadeira transformação no sistema fotográfico. As câmeras são uma parte do processo, a outra parte é o uso do computador e do ambiente social produzido pelas tecnologias digitais. O sistema digital se diferencia do sistema anterior pelo fato de que a câmera agora não captura apenas a luz, ela é um equipamento que captura dados, e esses dados são manipulados e distribuídos pelo computador. Essa é a verdadeira essência do paradigma digital. Essa condição é libertadora, pois o fotógrafo não depende mais da realidade para criar, a fotografia digital dispensa em larga medida o referente, já que os dados podem vir de diversas outras fontes, além da realidade. Esse último momento chamamos de Período da fotografia digital.

O quadro síntese a seguir, tenta ilustrar alguns dos aspectos mais marcantes que justificam e sustentam essa proposta de divisão de paradigmas. O quadro destaca fatores fundamentais que diferenciam os períodos fotográficos. Nesse caso, deixamos de fora o período pré-fotografia.

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